sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A HISTÓRIA OFICIAL E O ESTADO DE SÍTIO

Nas últimas duas semanas assisti a dois filmes que tratam das ditaduras do Prata. Em muitos aspectos semelhantes as daqui. Mas, sem dúvida alguma, muito mais brutais no sentido repressivo. O ótimo "Estado de Sítio"(1973), do grego Costa-Gravas, retrata como nossas dituras militares foram urdidas nos corredores de Washington, após os Estados Unidos se unirem aos setores mais conservadores do mundo pobre no pós-guerra em seu enfrentamento com os Soviéticos. O filme retrata o sequestro de um "consultor" em segurança do governo norte-americano da "Aliança para o Progresso" e do embaixador brasileiro Roberto Campos pelos guerrilheiros Tupamaros em Montevidéu. O consultor Michael Philip Santore é submetido a sucessivos interrogatórios pelos guerrilheiros, expondo as nuances do conflito ideológico que marcou aquele período. Através do diálogo entre o consultor e os Tupamaros somos apresentados a como se deu a organização dos golpes militares, o recrutamento dos torturadores, as práticas e seu modo de pensar e agir. O drama das veias abertas da América Latina passa diante de nossos olhos.
"A História Oficial"(1985), dirigido pelo argentino Luis Puenza, mostra o drama de uma professora (Alícia) oriunda da classe média argentina cujo marido enriqueceu durante a ditadura. Sendo Alícia infértil, o casal em 1978 adota uma criança, a que chamam Gaby. Alheia aos horrores da ditadura Alícia começa a enfrentar as denuncias no período da redemocratização do país, inclusive as que tratavam da existência da venda de bêbes dos mortos e desaparecidos durante a ditatura da junta de Videla. Depara-se com o horror de que sua filha pode ser a filha de uma das desaparecidas. De frente com a história obscura produzida nos porões da ditadura argentina Alícia resolve-se por acertar as contas com o passado e a história. Um grande filme.


Estado de Sítio



A História Oficial

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Soberania e Justiça: mais uma sobre o caso Cesare Battisti

O governo brasileiro concedeu asilo político ao ex-militante Cesare Battisti, conforme já manifestado aqui no blog com grande acerto por parte do ministro Tarso Genro, a mídia conservadora (o PIG, a saber, Partido da Imprensa Golpista) segue inconformada e vibra com os esperneios do governo antidemocratico, antipopular, reacionário e corrupto de Sílvio Berlusconi. Ontem, o Procurador-Geral da República, sugeriu o arquivamento do processo de extradição de Battisti. O embaixador italiano Michele Valensise foi chamado a Roma para "explicações". Personalidades como o fascista prefeito de Roma estão entre as vozes mais altas do revanchismo italiano.
A Itália vive um processo de deterioração acelerada da política e das instituições democráticas, sem que a comunidade internacional manifeste o desrespeito pelas instituições solapadas pela corrupção e o abuso do poder econômico da catrefa comandada por Berlusconi. Reavivam os preconceitos. Cabe aos progressistas e a esquerda o devido enfrentamento do governo italiano.

A rememorar: alguém lembra da posição do governo italiano quando da extradição do criminoso comum Cacciola? Negou-se a extradição devido às "condições desumanas do sistema prisional brasileiro". O Principado de Mônaco teve de extraditá-lo.


Cesare Battisti: quando o governo brasileiro é exemplo de democracia

O Ministério da Justiça brasileiro concedeu asilo político a Cesare Battisti, ex-militante italiano dos anos 70. Contrário à posição de herdeiros dos regimes autoritários na Itália e no Brasil, o ato pode ser anulado com apoio sórdido da grande mídia. Participe do abaixo assinado

(24/01/2009)

Esse texto remete a um abaixo-assinado de apoio ao Ministério da Justiça do Brasil, por ter concedido asilo político a perseguido político.

Em decisão corajosa e coerente com seus princípios democráticos e progressistas, o governo brasileiro, por meio do Ministério da Justiça do Brasil, concedeu asilo político a Cesare Battisti, ex-militante do movimento italiano dos anos 1970.

Como o próprio Ministro Tarso Genro declarou, trata-se de decisão jurídica que considera o estatuto político da perseguição da qual é objeto um ex-militante, mais de 30 anos depois dos acontecimentos pelos quais foi condenado em julgamento sumário, sem direito a plena defesa e por sentença baseada unicamente em informação obtida por "delação premiada". Naquele julgamento e sob essas condições, um acusado de crimes políticos foi condenado a pena de prisão perpétua (que, inclusive, não é admitida pela Constituição Brasileira).

A decisão do governo brasileiro é ato de justiça, que reconhece e reafirma, ao mesmo tempo, jurisprudência relativa a pedidos de extradição de outros ex-militantes italianos – extradição que o STF nunca concedeu, reconhecendo a dimensão política dos atos acusatórios.

A concessão de asilo político a esse ex-militante respondeu também às demandas de amplo movimento de solidariedade, que mobilizou vasta rede internacional de intelectuais, partidos políticos e movimentos sociais em todo o mundo. No Brasil, o asilo para Cesare Battisti foi pedido pelo MST, Via Campesina, por ONGs e vários segmentos da sociedade civil e por figuras políticas, dentre as muitas, o Senador E. Suplicy e o Deputado F. Gabeira.

A grande mídia brasileira – sem que se entenda por quê – empenha-se em amplificar e dar voz ao ponto de vista do governo italiano. Curiosamente, diante dessa decisão do Ministro Tarso, a grande mídia brasileira tem assumido posição diametralmente oposta à que teve quando o mesmo Ministro pediu a revisão da Lei (brasileira) de anistia para a tortura praticada durante o regime militar. Paradoxalmente, para a grande mídia brasileira, a tortura da ditadura faz parte do passado e deve ser esquecida, enquanto a luta armada de esquerda deve ser objeto de uma persecução perpétua.

É de estranhar-se muito essa ’adesão’ monolítica da grande mídia brasileira ao ponto de vista do governo italiano, posto que a posição do governo italiano manifesta acentuado tom neocolonial e eurocentrista (para não dizer pior), que visa a desqualificar a decisão democrática do governo do Brasil, tomando-o como governo dito "periférico", a ser desqualificado por ter "ousado" tomar decisão política independente.

Não se ouviu o mesmo tom por parte do governo Berlusconi quando, muito recentemente, o Presidente francês Sarkozy negou-se a extraditar Marina Petrella, ex-militante das Brigadas Vermelhas.

Se outros motivos não houvesse para qualificar como democrática e progressista a decisão do governo brasileiro, basta considerar a reação do governo Berlusconi, e facilmente se perceberá a justeza e o equilíbrio democráticos da decisão do governo brasileiro.

O revanchismo punitivo com relação à década revolucionária de 1970, na Itália, não é democrático e é retrocesso político. Esse mesmo movimento de retrocesso antidemocrático, na Itália, já levou um ex-fascista (Alemanno) à Prefeitura da capital (Roma) e um pós-fascista (Fini) à presidência do Congresso (Câmara dos Deputados). Ao mesmo tempo, o mesmo movimento de revanchismo punitivo tem determinado o desaparecimento da oposição parlamentar.

Mais preocupante, contudo, é ver que hoje, na Itália, ressurge a política fascistizante de discriminação dos migrantes estrangeiros. Essa política já está levando à multiplicação de atos racistas. A Itália, país de emigração, de onde vieram centenas de milhares de imigrantes para o Brasil, está se transformando em pesadelo para milhões de trabalhadores estrangeiros ou italianos não brancos. A Itália foi onde se viu a mais violenta e vergonhosa repressão às manifestações populares contra o G8, em Genova.

A perseguição aos militantes políticos de ontem é parte do movimento para calar as vozes democráticas de hoje. Não por acaso, o prefeito (pós)fascista de Roma, Alemanno, acaba de declarar que "o movimento

estudantil italiano (seria) dirigido por 300 crimininosos da universidade La Sapienza".

APOIAMOS a decisão do governo brasileiro no caso Battisti, porque apoiamos a solução política e jurídica para as questões da década de 1970 (a anistia) na Itália.

APOIAMOS a decisão do governo brasileiro no caso Battisti, também, porque estamos preocupados o crescimento da xenofobia, do racismo e dos processos de criminalização da oposição política, que se constata na Itália de Berlusconi e em quase toda a Europa.

O Brasil – e a maioria dos governos sul-americanos – apesar de todos seus graves problemas e violentas injustiças, pode sim estar à frente no processo de radicalização democrática, de abertura do horizonte dos possíveis, de afirmação dos princípios éticos de uma nova globalização: aquela que se constitui desde baixo, pelos movimentos sociais.

Le Monde Diplomatique Brasil.

http://www.petitiononline.com/cesare07/petition.html
no link acima você pode assinar o manifesto de apoio à permanência de Cesare Battisti como refugiado no Brasil.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

ROSA PÚRPURA DO CAIRO

O blog também passará a indicar filmes e músicas que são do agrado do blogueiro. Comecemos com um filme de Wood Allen. A Rosa Púrpura do Cairo é certamente um dos mais belos filmes a tratar da magia do cinema. É uma linda fábula em que, durante a Grande Depressão, a garçonete Cecília (Mia Farrow) é surpreendida quando a personagem de seu filme favorito "A Rosa Púrpura do Cairo" saí da tela de cinema a fim de conhecê-la. A partir daí o filme passa a rodar entre a ilusão e a realidade, a mágica e a verdade. Mostrando que a distância entre as duas, muitas vezes, é tênue demais.

Confira o trailler e se possível assista o filme originalmente produzido em 1985.

CHOQUE DE ESTADO MÍNIMO MATOU MAIS DE 1 MILHÃO NA EUROPA ORIENTAL

Após a crise internacional, outras áreas do conhecimento começam a desvendar os horrores provocados pela crença no "Estado mínimo", o laboratório da experiência neoliberal mais radical foi o leste europeu após a queda do "socialismo real". O resultado da terapia neoliberal confira abaixo.

Pesquisa realizada por David Stuckler e Lawrence King, da Universidade de Cambridge, e Martin McKee, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, conseguiu comprovar que a “terapia (econômica) de choque”, com privatização em massa a toque de caixa aplicada no ex-bloco soviético, na primeira metade da década de 90, foi responsável pela morte prematura de um milhão de pessoas.

O estudo, publicado na Inglaterra numa revista de medicina chamada “Lancet”, analisou a causa mortis de três milhões de homens em idade economicamente ativa em todos os ex-países comunistas na Europa Oriental, e sugere que pelo menos um terço desse total foi vítima da privatização em massa, que produziu desemprego generalizado e ruptura do tecido social.

Este trabalho vem se somar à crescente número de pesquisas comprovando que o grau de transição econômica produziu sofrimento generalizado devido a mortes e doenças físicas e mentais. Segundo a reportagem do jornal Financial Times, de Londres, os pesquisadores atacaram duramente o legado de Jeffrey Sachs, economista norte-americano que à época defendeu o tal “choque de Estado Mínimo”.

O professor McKee enfatizou que a morte por alcoolismo foi a mais importante explicação imediata para o surto nas mortes, mas também contribuíram a dieta pobre e o desnível cada vez maior entre os sistemas de saúde ocidental e comunista a partir da década de 60. Entretanto, segundo o jornal, o professor disse que demissões de pessoal, especialmente entre pessoas com menor escolaridade e sem assistência social, foram um dos principais motivos. Um comentário escrito por Martin Bobak e Michael Marmot, do University College of London, publicado na própria “Lancet”, adverte que a pesquisa foi de difícil viabilização, pela heterogeneidade dos países.

De Brasília,
Pedro Oliveira/Site O Vermelho.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Um acerto do Tarso

O governo italiano ainda esperneia pedindo a extradição de Cesare Battisti, mas ao que tudo indica o asilo político será concedido pelo governo brasileiro. Recaem dúvidas sobre se o réu teve na Itália garantido seu direito a ampla defesa. Ao que tudo indica: não. Parece se tratar da antiga prática da perseguição política.
Battisti é acusado e considerado culpado pela justiça italiana, dentre outros, de ter cometido dois assassinatos em um mesmo dia, ambos com apenas 3h de diferença e a 300km um do outro. No mínimo, improvável. Battisti participou daquela geração que buscou trazer a guerra de guerrilha para o cenário urbano. No entanto, inauguraram a guerrilha da sociedade do espetaculo em que vivemos, patrocinando ações como o assassinato do ex-premier italiano democrata-cristão Aldo Moro (rememorado no ótimo Buon Giorno, Notte).
Entretanto, nada pode comprovar realmente a participação de Battisti em algum desses crimes. E, se tivesse participado em 30 anos qualquer crime já teria prescrito em uma democracia plena!
Todavia, o governo Berlusconi segue em busca de Battisti. Lá o governo ainda não se deu conta, aparentemente, da queda do muro e o primeiro-ministro, notório corrupto, chama os comunistas de "comedores de criancinhas". Mais falastronice impossível.
Todavia, a dita "comunidade internacional" não enfrenta o governo do Sr. Berlusconi, o qual atenta contra a democracia italiana constantemente. Por isso, em um mar erros e cálculos errados do Tarso, um acerto.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Obama e a sinalização do fim do neoliberalismo.


Acaba de tomar posse o 44o presidente dos Estados Unidos da América: Barack H. Obama. Até mesmo nas palavras do discurso de posse do novo líder norte-americano a falência do neoliberalismo está patente.
É o fim do império do Estado mínimo. É o fim. É o fim. Durante a inauguração do novo mandato presidencial Obama clama por um Estado eficiente, nem grande nem pequeno, mas capaz de oferecer os bens públicos necessários e capaz de auxiliar o país a sair da crise.
Em breves palavras, as quais a imprensa tupiniquim (pelo que pude acompanhar até agora) tem dado pouca notabilidade, o presidente Barack Obama sinaliza a volta do Estado regulador.
Na edição de dezembro de "Le monde diplomatique - Brasil" anunciava-se o fim de uma "Era Republicana", tempo esse iniciado em 1980 com o Reagan, ou seja, com o início do neoliberalismo. Ao longo de todo o período os governos amaricanos seguiram todos mais ou menos a mesma cartilha. Mesmo o Clinton, o único democrata do período, se diferenciou única e exclusivamente por dar uns remendos sociais no programa ultra-liberalizante.
Parece que o espírito de F. D. Roosevelt chutou pra longe a alma penada do Reagan que a pouco assombrava a Casa Branca.
O império em decadência mais ajuda quando não atrapalha e ao recolocar, como gostam os ingleses, a agency do Estado na berlinda o novo governo estado-unidense já cria um mundo de novas possibilidades.
A posse que é um marco da história norte-americana, uma vez que é a primeira vez que um negro adentra o Salão Oval como supremo mandatário da nação norte-americana, será um marco mundial se o 1o presidente negro permitir o retorno da política.